Estava a nevar...
A neve ia pouco a pouco caindo, floco a floco nos telhados, e cobrindo as ruas de branco alvo. Anoitecia na cidade e a neve branca brilhava, iluminada pelas luzes cintilantes que piscavam sem cessar. Era Natal, havia muitas luzes, muita cor e muita magia no ar.
Das chaminés saia o fumo das lareiras e o cheiro da lenha queimada misturava-se com o cheiro dos filhoses, peru recheado e de tantas iguarias. Os cheiros misturavam-se numa catadupa , provocando náuseas aos transeuntes, menos aos pobres mendigos, que nas soleiras das portas estavam sentados em cartões canelados, embrulhados em velhas mantas que alguém se lembrou de lhas dar, para que dormissem quentes nas noites de inverno, como se fosse possível aquecer o corpo aquelas gentes, quando a alma está tão fria!? E ali jaziam eles petrificados pela neve, enquanto se ouviam gritos de alegria de crianças felizes e conversas misturadas com musica de happy Christmas and happy new year!
Ao longe, na grande cidade avistavam-se luzes e cores em toda a parte, bem como a gigantesca árvore de natal que colocaram na praça central da cidade, e ao longe entre as luzes da árvore, carros seguiam velozes ao acender do verde dos semáforos e os cacilheiros atracavam no cais. E as águas faziam ondas que batiam nas margens. As pessoas saiam apressadamente bem agasalhadas, atarefas de sacos e presentes nas mãos, pois estávamos na noite da consoada.
Mas, enquanto a cidade se ia adormecendo, silenciosa e vazia, fria e solitária, porque as famílias se juntavam à mesa em ceias brutais, enquanto o sino da Igreja badalava as horas, as meias horas e os quartos de hora, já no interior da igreja, o coro ensaiava a musica para a missa do galo, enquanto milhares de pessoas e crianças rasgavam embrulhos e prendas com papel colorido e laçarotes de mil cores, e ao fundo...bem no fundo da rua, mora o oposto nesta noite de Natal.
Este conto, não é maravilhoso nem belo, é real, porque enquanto uns festejam e sorriam outros choravam, porque na noite de Natal, houve quem morresse e quem nascesse, houve quem chorasse porque estava só, houve quem ouvisse somente a barriga dar horas de fome pela noite dentro, houve quem tivesse morrido de frio sem agasalho quente, quem chorasse de dor, ou de saudade, houve milhares de pessoas em lares abandonados e milhares de crianças em orfanatos, sem pai e sem mãe.
Natal é amor, é uma sagrada família reunida em torno de um nascimento. Natal é cristão, é somente religião, não é dinheiro, não é prendas ou matéria, o Natal só devia de ser celebrado por quem tem amor no coração, por quem ama Jesus e a verdadeira palavra de família e de união, Natal é a celebração cristã do nascimento de Cristo Redentor, que para salvar a humanidade se sacrificou!- E nós, quantas vezes estamos dispostos a nos sacrificar em prol dos outros?-Onde está o nosso amor, a partilha e a compaixão?-Por que é que nesta quadra quase todos amolecem o coração em actos de partilha e de doação, há ofertas e peditórios, há festas e festanças, e no resto do ano se esquecem que quem precisa, não precisa unicamente no Natal, mas no ano inteiro?-Porque o egoísmo reina na nossa sociedade!-Porque a moral deu origem à imoralidade e à hipocrisia!
Como é linda uma árvore de Natal iluminada e sob ela milhares de presentes!-Mas durante o ano inteiro, essa árvore chamada pinheiro, é queimada aos milhares!
Como é belo fazer e comprar um presépio, mas durante um ano inteiro ninguém entra numa igreja ou reza uma única oração pela sua família ou pela salvação do mundo, ninguém ajuda aquele que vive a seu lado e que precisa de ajuda!- E essa Sagrada Família está lá?!-Ou será que não repararam, que existe em quase todas as igrejas esse Jesus Menino feito homem, cruxificado por nós numa cruz sob um altar, enquanto uma pietá chora amargamente em seus braços a morte dilacerada de ceu filho?! Sim, esse menino que agora nasceu no Natal de cada ano, dará lugar a um homem morto numa cruz na Páscoa, mas como a Páscoa que significa um renascer para vida se transformou num coelho que põe ovos de chocolate, onde é que isto já se viu?!!!, e como a Pascoa é nada mais nada menos do que aquela altura fabulosa em que as crianças esperam por notas nos mialheiros e receber uma montanha de gulomices de toda a espécie, não admira que as quadras cristãs se tornem naquilo que nós saibamos e que sem dúvida as tradições se percam a par com a fé, porque as sociedade consumista impera e não há volta a dar!
Por isso, este é o meu conto real do Natal!
Eunice Roque
25-12-2010
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