As minhas memórias

26.9.10

"CARTA"

Ainda hoje não encontro a razão
para que me deixasses assim
tão friamente,
como um cão que se abandona
num dia de caça,
só porque não sabe farejar!
Não encontro as palavras
para um abandono fugaz
sem que pudesse sequer prever
ou me explicar,
sem que me pudesses perdoar
e nossas vidas continuar.
Tu mataste-me por dentro
como se fosse um condenado do outrora
com a cabeça num cepo
à espera de ser decepada!
Tu, iradamente me acusaste sem razão
de tantas coisas injustas
que te saíram da boca e do coração
e me deixaste solitariamente entregue a um destino
sem seu próprio destino,
sem vida, num mar de lágrimas
de revoltas
pior que o mar em dias de tempestade!
Nos meus braços, no meu colo ficou
uma criança que sem saber de nada da vida
sem entender o que se passava
chorava,
e eu, como mãe suas lágrimas limpava,
tentando distrai-la , tirar-lhe da alma
as perguntas que me fazia e para as quais
não tinha palavras!
o meu coração de mãe sofreu, sofreu muito
e o de mulher também!
Vi de um dia para os outros os meus sonhos
serem roubados, por um ladrão na calada da noite,
vi o meu vestido lindo e seu véu serem rasgados
e os votos belos, lindos do outrora
sob um altar erguido a Deus serem forjados,
senti que a vida me fugira dos pés
como um tapete,
perdi em pouco tempo, tudo aquilo que desejei,
tudo aquilo que amei, lutei e trabalhei...
Hoje, apenas me amargura ver famílias unidas e felizes
que ao domingo passeiam com os filhos,
casais que trocam beijos e abraços de amor,
e sinto apenas a falta disso,
não para mim,
para a minha filha...
Sei que para ti nunca fui uma boa mãe,
mas no fundo da minh`alma
nunca deixei de amar e de lutar por aquilo
que mais amo, a minha filha...
Afinal, fui eu que durante 36 semanas
a carreguei dentro de mim
e sofri dores para as quais não existem palavras.
Hoje, depois de tantos dias e meses passados,
sinto-me humilhada, triste e só,
perdida num tempo e num espaço...
vejo que fui traída, enganada
porque um amor não acaba assim num nada
de um dia para ou outro...
Hoje, não acredito em mais uma única palavra
que possa sair da tua boca,
perdi a capacidade de amar, mas também de perdoar,
vejo que perdi dez dos melhores anos da minha vida
construindo um futuro que julgava ser para dois,
mas afinal estava cega...
Hoje, não posso voltar atrás,
porque se pudesse,
gostaria de ter aberto bem os olhos,
para que tivesse tido um coração de pedra,
para não te aceitar de volta
quando naquela tarde de Julho
me voltaste a procurar depois da tua longa partida...
Tu já me havias magoado, Tu já me havias deixado
e eu tão burra, voltei a acreditar,
porque o amor é cego, é estúpido, é irracional.
Como pude aceitar-te de volta e acreditar em Ti,
como, como, como?!
Tu não sabes amar!
Tu não te amas a ti próprio!
Tu feres com o teu orgulho cego
aqueles que te amam e estão à tua volta!
Tu és vazio, oco, desprovido de sentimentos,
tu és uma espécie de cata vento,
tu és a poeira que anda no ar,
sem rumo, sem destino, sem vontade de assentar...
Tu, foste o meu grande amor,
a minha, maior dor, a minha maior desilusão!
Por muitos anos que viva
nunca vou esquecer a dor que me causaste,
porque tu no meu coração espetaste um punhal,
tu mataste-me por dentro como os carniceiros de Inês de Castro.
Estou morta e fechada a sete chaves numa torre mística de um castelo,
enfeitiçada com sete anos, que não se esquecem,
não saram,
e estou amaldiçoada numa dezena de anos
que partilhei contigo,
estou amarrada num numero dez sob o qual casei,
sob o qual me abandonaste,
sob o qual me deixaste!

27/09/2010-Eunice Roque

1 Comments:

  • At 10:59 a.m., Blogger Unknown said…

    Eunice ....
    Tudo na vida tem um inicio tem um meio e um Fim....
    Pode n existir explicação para alguns actos que nos deixam mais frageis mas acredita que DEUS estara ao teu lado hoje e sempre que precisares ....
    E ai iras buscar a força que precisas ....
    Deixo te um beijinho da minha força e porque sei o que tas a passar mas tambem sei que teras força para suportar isso e mto mais ...

    Beijinhos de Luz ...
    Niska

     

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